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Diário de bordo de um maquinista

Diário de bordo de um maquinista

Por
Manoel Oliveira
Editora
Grupo Editorial Scortecci
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Sinopse

Eu achava que a cada dia vivia uma adrenalina diferente e, quando eu cometia algo de errado, minha ansiedade aumentava porque ficava imaginando que alguém houvesse descoberto e a qualquer momento eu seria chamado a atenção. Mas aí aquilo passava e eu já me sentia pronto para mais um episódio emocionante. Entre esses episódios rotineiros e até engraçados, um dos que eu mais temia era quando eu percebia que meu trem não iria conseguir parar dentro da plataforma de embarque e desembarque, por eu ter adentrado acima da velocidade, o que os maquinistas chamam de “entrar chutado”.

Era horrível ver a plataforma ficando para trás e ainda seria necessário pedir autorização ao centro de controle para poder recuar o trem e posicioná-lo no ponto de parada, o que levava um certo tempo, aumentando assim a ansiedade dos passageiros que só poderiam desembarcar quando as portas estivessem abertas, porém, com o trem devidamente posicionado na plataforma, mas depois de passar por tal apuro, eu achava tudo aquilo engraçado. E já passava a entrar nas próximas estações com mais cautela.

Assim eram minhas viagens. Algumas mais longas, outras mais curtas, mais cansativas, entediantes, alegres, tristes etc. Tudo dependia muito do meu estado de espírito, ou de algum tipo de ocorrência no decorrer do trajeto. Tanto é que, às vezes, uma viagem que possuiria metade do percurso de outra acabava por levar o dobro ou mais do tempo necessário.

Mas todas as viagens possuíam uma magia, uma energia talvez até enigmática que seria praticamente impossível de se explicar. Talvez seja por um encanto que a própria tradição da ferrovia no decorrer dos anos nos faz adquirir esse sentimento tão sublime. E havia algo de singular em todas as viagens, que, ao ser descrito, dará uma breve impressão de que, segundo a teoria dos maquinistas mais antigos, não há uma viagem igual à outra.